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Mostrando postagens de junho, 2023

SIM!

SIM, eu lambo a tampa do iogurte e passo o dedo nas sobras do pote. SIM, eu me aguento sem analgésicos até o limite da dor. SIM, eu como o pão de ontem para oferecer o pão de hoje. SIM, eu acredito no que é dito, mesmo contra as evidências. SIM, eu faço longas caminhadas com um tênis furado e de solado fino. SIM, eu sou discretamente insistente até a fronteira da inconveniência. SIM, eu dou um boi para não entrar numa briga e dois bois para sair rapidinho. Tenho aprendido a ficar confortável com o NÃO.  Quando ele chega, já teve tanto SIM...

Água mais limpa, terra mais firme

"Hello... can you hear me?" É, não deu para me "ouvir" por muuuito tempo. Por aqui foi difícil, você sabe... Andei "colando o ouvido" na parede algumas vezes para "ouvir" alguma coisa do seu lado. Por aí não foi fácil, eu sei... Isto posto, apresento uma proposta: vamos pular essa parte? Podemos manter algumas coisas encaixotadas e queimá-las em fogo alto? O momento é de paz e suavidade... Um filho pródigo se sente acolhido. Major Tom se alegra ao captar sinais do Ground Control.  Devagar, assim que possam, as coisas desarrocham, as cores desabrocham. A gente se fala em futuras (entre)linhas!

Músicas, esperas e softwares

Pedro Mariano chega todo romântico, dizendo que "simplesmente posso esperar aqui por você uma eternidade, uma tarde inteira". Já os Paralamas meio que me incomodam, lembrando que "não pedi que ela ficasse, ela sabe que na volta ainda vou estar aqui". Eu sempre fui a minha melhor companhia. É ótimo estar comigo e escutar as músicas que só eu escuto. Fazer (ou não) as coisas que só eu faço. Sair por aí sem rumo e ver o que acontece - e, ora vejam, acontece. O problema é que uma atualização recente do software afetivo introduziu um bug no meu modo eremita...  Faz falta um café acompanhado. Uma conversa na praça. Uma saída para comprar roupas. Coisas leves que até parecem, mas não são simples. E, com o perdão do Pedro e dos Paralamas, nada disso tem o compromisso de esperas eternas ou romances ideais. Por sorte, enquanto uma nova atualização não acontece, um bug geralmente tem um workaround - a popular "gambiarra". E o modo eremita segue no controle. "Inf...

Os pets não tem esses problemas...

 

A casa

Era uma casa nada engraçada... Nela, moravam um vivo, um semivampiro e um semifantasma. Havia um pântano na pia. Arrastando correntes, o semifantasma às vezes flutuava até lá para fazer a drenagem e a limpeza provisórias. Havia uma coleção de vasos de cinzas e pilhas de garrafas, um trabalho do semivampiro no silêncio da noite. Havia pílulas mágicas, de diversos tamanhos, cores e efeitos, para que o semivampiro e o semifantasma continuassem fazendo jus ao prefixo "semi". Ao contrário do que poderia parecer, o vivo era o mais sobrenatural dos habitantes. Suas resplandecentes palavras e ações eram como rezas e rituais para o ambiente. Sem elas, as paredes desabariam... O fenômeno mais assombroso acontecia no portão da casa. Ao entrarem por ele, os raros visitantes nada sofriam. Já os moradores, ao saírem por ele, tornavam-se pessoas normais, simpáticas, comuns. Sim, era assim.

Vazão

Uma barragem tem os seus motivos. Tem até alguma beleza. Tem os seus perigos. Fiz a minha barragem para sobreviver. Depois de alguns fluxos desencontrados e algumas demandas urgentes, ergui meu barramento de solitude para conter uma represa de sentimentos, encantos e afetos. Era uma vida boa. Era uma vida calma. Tudo sob controle. Com o passar dos anos, a necessidade de controle foi diminuindo. As demandas ficaram menos urgentes. Sentimentos, encantos e afetos pediam para transbordar. Parecia seguro abrir um pouco as comportas. Acho que quase matei alguém... Alguém com feridas de outros fluxos desencontrados. Alguém que gostou da temperatura da água e acreditou que poderia mergulhar. Alguém  - suprema ironia! - que insistiu em deixar o rio livre para moldar o leito. Meses depois, a vazão parece adequada.  O leito vai se transformando, livre, calmo, vivo. Preciso aprender muito sobre represas e comportas...