Uma barragem tem os seus motivos. Tem até alguma beleza. Tem os seus perigos.
Fiz a minha barragem para sobreviver. Depois de alguns fluxos desencontrados e algumas demandas urgentes, ergui meu barramento de solitude para conter uma represa de sentimentos, encantos e afetos. Era uma vida boa. Era uma vida calma. Tudo sob controle.
Com o passar dos anos, a necessidade de controle foi diminuindo. As demandas ficaram menos urgentes. Sentimentos, encantos e afetos pediam para transbordar. Parecia seguro abrir um pouco as comportas.
Acho que quase matei alguém... Alguém com feridas de outros fluxos desencontrados. Alguém que gostou da temperatura da água e acreditou que poderia mergulhar. Alguém - suprema ironia! - que insistiu em deixar o rio livre para moldar o leito.
Meses depois, a vazão parece adequada. O leito vai se transformando, livre, calmo, vivo.
Preciso aprender muito sobre represas e comportas...
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