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Mostrando postagens de novembro, 2022

A contagem

- Onze dias - pensou Leandro em voz alta... Sozinho no apartamento, cigarro acesso, ele pega mais uma taça de conhaque. Não conseguia (e nem queria) esquecer Larissa. Ela disse que voltaria. Não disse quando voltaria. Era isso que o angustiava... Deitado no sofá, a baforada de fumaça sai acompanhada de um lamento desalentado. Pô, faltou falar tanta coisa... Não que Larissa não soubesse. Foi Leandro que não previu o peso de um peito cheio de carinho não declarado. Seu alívio foi pensar na regra de contagem. A regra que ele ouviu em algum lugar, talvez em algum filme: "conte há quanto tempo você está nesta situação e imagine que é o tempo que falta para você sair dela." Se der certo, dói menos no começo. Se der certo, consola mais no meio. Se der extremamente certo, surpreende no final. Matando o conhaque em um único gole, Leandro esboçou um sorriso. Larissa se foi há onze dias. Daqui a onze dias, Larissa volta...

O verdadeiro herói

Sancho Panza é um personagem de uma riqueza muito pouco compreendida.  Movido por uma ingênua ambição, atira-se na estrada em companhia de um lunático desapegado da realidade. Passa por suplícios e humilhações na vã expectativa de castelos de areia. Zombado por poderosos fúteis, é tentado pelo falso poder, onde aprende duras e sábias lições sobre o verdadeiro poder. Lança mão da esperteza inofensiva para evitar sofrimentos sem sentido. Garante um final digno ao causador de suas experiências indignas. Que todo Sancho Panza faça sua necessária jornada em direção à garantia do bem comum e à inequívoca lucidez.

Absorvendo o (bom) impacto

Vou dar um jeito na casa. Vou passear com o cachorro. Vou abastecer o carro. Vou dar carona para o filho. Vou tirar o atraso do trabalho. Vou visitar a mãe. Vou medicar o gato. Vou espiar o arco-íris no meio da chuva ensolarada. Vou fazer cachorro-quente. Vou escrever ouvindo música. Tudo isso sem saber se estou com os pés no chão. Sem ter certeza de ter entendido aquele momento, aquele gesto. Sem pressa para que os sentimentos se assentem aqui dentro. E sem tirar o sorriso do rosto...

Requentando - 06

FAKE KILLS  (texto de 27/01/2018, quando eu tinha alguma esperança de melhora) "Curta e compartilhe para concorrer a um foguete espacial". "Marque o seu amigo nos comentários, senão uma criatura de nove pernas virá dormir com você". "Neste vídeo, Luizão das Couves mostra seu preconceito ao falar que não gosta de sorvete de milho verde". "Estudante humilha palestrante ao lhe oferecer um copo d'água". "Divulguem a foto deste casal safado, que está roubando as roupas dos varais na zona sul da cidade".  Forçando a barra, é mais ou menos isso que encontramos nas redes sociais o tempo todo.  Já fui criança um dia (antes de existir a internet como conhecemos agora). Tinha medo de quebrar correntes e sofrer maldições. Achava que o mundo se dividia em dois lados, um bom e um mau - e, obviamente, como eu era do lado bom, tudo que fosse diferente de mim era mau. Acreditava que algumas pessoas diziam verdades inquestionáveis e, portanto, eu pod...

Fotos

Hoje parece estar melhor. Ontem parecia quase insaciável. Levanto, olho para a rua, invejo a disposição do catador de recicláveis. Pego o café e aguardo o retorno de minha alma ao corpo - não deve demorar. Em breve, retornarei às fotos. Primeiro, as demandas. Filhos fora de casa, eu deveria cozinhar, mas não preciso. Um sanduíche e umas frutas devem resolver. Não esquecer a garrafinha com água! Sim, as fotos... O ritual de veneração daquelas imagens que me inspiram. A celebração litúrgica desta Boa Nova que eu mesmo inventei. A adoração a alguém em quem eu desenho enfeites de perfeição. Meio da tarde, porta da geladeira aberta, momento de reflexão. Caramba, como é difícil me livrar destes produtos ultraprocessados... Mais difícil, só restringir o café ao período da manhã, já vou fazer mais aqui. Nas fotos, eu sei que há filtros. Experimento os sorrisos, não as lágrimas. A maquiagem, não o bafo matinal. O gesto delicado, não o momento emputecido. Se há um consolo nestes devaneios é este...

Melhor assim!

 

Eu ia escrever sobre você

Sobre como consegue me inspirar. Sobre como sabe o passo que eu preciso dar. Sobre como minha ideia de você cativa. Sobre o faz-de-conta que me motiva. Mas a bebida acabou. O sono chegou. A musa se afastou.  Nem uma dose dupla de Ray Charles ("You Don't Know Me") me revigorou. E eu não escrevi sobre você...