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Perdi

Foi bom perder... Perder o receio e não esperar o momento perfeito.  Perder a razão e fazer o convite  Perder meio tanque de combustível, procurando um lugar para conversar. Perder aquele jogo medíocre.  (Até porque a gente nem gosta, certo?)  Perder a noção do tempo, ouvindo você, tomando café.  Perder todos os minutos possíveis entre o início da despedida e a partida de fato.  Perder o horário de funcionamento dos mercados do caminho (a geladeira que lute). Perder o sono, relembrando a conversa. Tão bom perder! 
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Capas e essência

Parei no balcão da loja e o vi, a dois clientes "de distância" à minha esquerda. Falava alto e ria, quimicamente alterado. Cabelos compridos, barba por fazer. Ensaiava ir embora, voltava, conversava mais. Nem me viu. Isto foi há poucos dias. Antes disso, há alguns meses,  a gente se cruzou numa calçada, caminhando à tarde. Carregando um saco de recicláveis, cabelo desgrenhado, fez uma brincadeira sobre o tempo e eu respondi no mesmo espírito. Acho que ele não me reconheceu. Eu o conheci há nove anos, quando tive uma papelaria. Semanalmente recebia sua visita, cabelo bem cortado, calça e camisa. Vendia doces, tentava me sugerir parcerias comerciais, mas acabei sendo apenas um cliente fidelizado. A gente se conhecia pouco e conversava bastante. Nos três momentos, o mesmo sorriso, a mesma gentileza, a mesma disposição em fazer o melhor com o que a vida lhe deu. Eu não tenho dúvidas, existe luz ali.

O que a IA pensa que eu penso

Dia desses, pedi para uma inteligência artificial escrever um texto tedioso, de aproximadamente vinte linhas,  imitando minha escrita, com base nos rabiscos desta página. Segue o resultado:  " Era uma quarta-feira tão insossa que até o relógio parecia cochilar entre os segundos. O café, coitado, já não tinha forças para fingir entusiasmo; descia morno, como quem cumpre expediente. A janela oferecia o mesmo cenário de sempre: vizinho regando plantas que não crescem, cachorro latindo para o nada, e um céu que não se decide entre cinza e bege. O computador, fiel cúmplice do tédio, insistia em atualizar programas que ninguém pediu. A cada notificação, uma promessa de novidade que se revelava apenas mais uma barra de progresso interminável. O celular vibrava, mas era só propaganda de colchão — ironia cruel para quem não consegue dormir direito. No meio da monotonia, surge a tentação de filosofar: será que o tédio é uma forma sofisticada de protesto contra a pressa do mundo? Ou apen...

Divagações em plena madrugada

E essa sensação de que o mundo tá abrindo um caminho incontornável e sob medida? Será só mais uma vez? Ou será esta A VEZ? Eu tinha como não convidar? Com os ingressos na mão? Que eu nem comprei, apenas ganhei? Depois de toda a conversa, todo o interesse, toda a vontade de ver de novo?   Será coisa de garotão iludido? De velho caduco, acreditando na compra de terreno na Lua? De homem que blinda o peito, mas sucumbe a disparos de beleza e sensibilidade? Por que  não tá incomodando ousar onde eu nunca ousei? Por que não tô dando tempo ao tempo? Por que pareceu tão claro que era o dia, a hora, o minuto? Para fechar: o que você ainda tá fazendo acordado, palhaço?

Misturando alhos com bugalhos

Tomou um susto, mais uma vez. Quando passava por aquela árvore na calçada, ele quase sempre pensava que aquela raiz exposta, grossa e cinzenta, era um cachorro morto abandonado no canteiro. Depois do susto, a gargalhada, tanto pelo bom humor quanto pela sensação de que algumas coisas ainda podiam surpreendê-lo. Outra coisa que o surpreendia: ele estava aprendendo a acreditar nas dicas do desconforto. Na verdade, demorou para chegar nisso. Por muito tempo, achou nobre tomar algumas porradas pacientemente. Ou aguentar alertas da razão sobre excessos dos sentimentos, ou vice-versa, enquanto não decidia se dava ouvidos ao cérebro ou ao coração. Estava aprendendo agora a dar ouvidos a quem estancasse o sofrimento primeiro. Atravessou a rua pouco movimentada, já em frente ao comércio de hortifrúti. Conforme ia colocando os produtos na cesta, ia rindo sobre as novas decisões da vida. Já não ia segurar toda batata quente. Nem descascar qualquer abacaxi. Muito menos resolver...

"Quer dançar comigo numa dessas noites solitárias?"

Não, ele não dançava. Já ela, minha nossa! Mas o primeiro sinal veio dele. Loooonge, lá do outro lado do salão, ele viu que ela tinha amigos em comum e cumprimentou. Ela respondeu. Vieram se movendo, um em direção ao outro.  À distância, uma "conversa" veio se desenrolando... Ele fazia uma expressão de admiração por um gesto charmoso dela com o copo na mão. Ela ria de uma galhofa dele ao tentar desviar de algumas pessoas ao ritmo da música. Olhares, mímicas e articulações exageradas com as bocas trocaram muitas informações até se encontrarem. Pareceu muito tempo. Comunicou uma vida. Duas vidas, na verdade. Acabaram de se tocar. A dança começa agora. 

Parabéns ao vento

Às vezes, uma pessoa querida some. Do nada, redes sociais são desativadas, mensagens não são mais trocadas, notícias param de chegar. A gente especula causas do sumiço. Motivos de força maior. Necessidade de se dedicar apenas a si ou aos seus. Sei lá, problemas de abdução (na cadeira da academia ou num objeto voador não identificado). Pode ser muita coisa.  Só não pode deixar de ser pessoa querida. Porque isso não depende dela, depende da gente.  Algumas datas ficam guardadas. Hoje é uma delas. Feliz aniversário, pessoa querida!