Foi bom perder... Perder o receio e não esperar o momento perfeito. Perder a razão e fazer o convite Perder meio tanque de combustível, procurando um lugar para conversar. Perder aquele jogo medíocre. (Até porque a gente nem gosta, certo?) Perder a noção do tempo, ouvindo você, tomando café. Perder todos os minutos possíveis entre o início da despedida e a partida de fato. Perder o horário de funcionamento dos mercados do caminho (a geladeira que lute). Perder o sono, relembrando a conversa. Tão bom perder!
Parei no balcão da loja e o vi, a dois clientes "de distância" à minha esquerda. Falava alto e ria, quimicamente alterado. Cabelos compridos, barba por fazer. Ensaiava ir embora, voltava, conversava mais. Nem me viu. Isto foi há poucos dias. Antes disso, há alguns meses, a gente se cruzou numa calçada, caminhando à tarde. Carregando um saco de recicláveis, cabelo desgrenhado, fez uma brincadeira sobre o tempo e eu respondi no mesmo espírito. Acho que ele não me reconheceu. Eu o conheci há nove anos, quando tive uma papelaria. Semanalmente recebia sua visita, cabelo bem cortado, calça e camisa. Vendia doces, tentava me sugerir parcerias comerciais, mas acabei sendo apenas um cliente fidelizado. A gente se conhecia pouco e conversava bastante. Nos três momentos, o mesmo sorriso, a mesma gentileza, a mesma disposição em fazer o melhor com o que a vida lhe deu. Eu não tenho dúvidas, existe luz ali.