Parei no balcão da loja e o vi, a dois clientes "de distância" à minha esquerda. Falava alto e ria, quimicamente alterado. Cabelos compridos, barba por fazer. Ensaiava ir embora, voltava, conversava mais. Nem me viu. Isto foi há poucos dias.
Antes disso, há alguns meses, a gente se cruzou numa calçada, caminhando à tarde. Carregando um saco de recicláveis, cabelo desgrenhado, fez uma brincadeira sobre o tempo e eu respondi no mesmo espírito. Acho que ele não me reconheceu.
Eu o conheci há nove anos, quando tive uma papelaria. Semanalmente recebia sua visita, cabelo bem cortado, calça e camisa. Vendia doces, tentava me sugerir parcerias comerciais, mas acabei sendo apenas um cliente fidelizado. A gente se conhecia pouco e conversava bastante.
Nos três momentos, o mesmo sorriso, a mesma gentileza, a mesma disposição em fazer o melhor com o que a vida lhe deu. Eu não tenho dúvidas, existe luz ali.
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