Perplexo, quase espantado, ele fechou o notebook e foi se deitar. Tinha lido coisas surpreendentes... De repente, uma bobagem antiga que ele republicou, num momento de puro desânimo, ganhou referência em um texto muito melhor. Ganhou, ainda, uma análise respeitosa, profunda e totalmente imerecida, em meio a comentários primorosos. "Preciso rever 'Muito Além do Jardim'... " Ele não se lembrava de quase nada daquele filme, onde um bobão era alçado ao status de sábio por uma má interpretação de pessoas intelectualmente superiores. Mas ele sabia que não era o personagem do Peter Sellers. Faltava-lhe inocência. Sobrava-lhe impostura. Não conseguia ter consigo mesmo a generosidade que conquistava em outras pessoas. Já estava aceitando que, na história da própria vida, nunca fora protagonista, vinha deixando de ser coadjuvante e estava se tornando vilão (e sem a competência de um plot twist para sacudir a audiência). "É, eu preciso rever o filme..."
Para transformar com cuidado e constância