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Mostrando postagens de novembro, 2024

Lembrar o azar

Depois de uma olhadinha boba no espelho trincado do corredor, viu de relance o calendário. De repente, a data se tornou familiar. Sete anos, que loucura! (Mesmo fornecedor do calendário de papel, inclusive...) Lá ia o idealista daqueles tempos, seguro de captar os sinais claros para a construção de um castelo de sonhos. Não era do seu feitio saltar no escuro, mas estava tudo muito claro! Meses depois, numa noite de expectativas, a revelação. Sinais mal captados. Castelo afundando. Soterramento doloroso. Tropeços não o incomodavam. O tropeço é um acidente - involuntário, por definição. Já o salto mal calculado acabava com ele. O salto era um erro. E foi um baita erro...O velho e descuidado erro de espelhar a fantasia na realidade.  Agora o velho era ele, não o erro. As cicatrizes ensinaram a não deixar os sentimentos olharem para o espelho, achando que estavam olhando para a janela, para o outro, para o mundo. Sete anos... Fim do azar pelo espelho trincado?

Rolando o feed urbano

Era uma saída rápida, só para abastecer o carro e passar na padaria antes de buscar a filha na faculdade. Fim de tarde, trânsito meio tranquilo, deu-se a liberdade de uma olhadinha rápida nas casas da vizinhança enquanto dirigia. Chamou-lhe a atenção uma mulher sentada naquela varanda. Não conseguiu entender se ela estava rindo ou chorando. Tinha tempo, resolveu fazer um contorno na quadra para confirmar. Quando ia fazer a última curva de retorno, um cachorro e um gato agasalhados passaram correndo na calçada em outra direção. Com curiosidade e preocupação, tentou segui-los por algumas ruas, quase entrando na contramão. Ia tentar voltar ao caminho original, quando um casal saindo de um shopping iniciou uma briga escandalosa. Juntamente com alguns outros carros, começou a acompanhá-los lentamente, sorriso malicioso, ouvidos atentos à troca de insultos baixíssima (em qualidade, não em volume). Insultos agora abafados por um caminhão de som, com alto-falantes despejando uma proposta r...

Quando o cara não tem coragem de escrever um texto direto

Às vezes a gente conta o milagre, mas não revela o santo. E sabe de uma coisa? É engraçado quando você conta o milagre para o próprio santo! Acredite, nem sempre ele percebe. Ou percebe, mas finge que não. Ou nem finge, mas a gente fica com vergonha de perguntar se ele percebeu.  Não, não vou dizer qual foi o milagre. Porque o santo pode estar lendo isso (e não o revelarei, como foi dito). Vá lá, vou dizer que não foi milagre recente. Houve um momento. Uma pergunta. Um gesto. Acreditei que tinha sido apanhado, como se anjos com harpas estivessem à espreita, mas vai saber? Foi você o santo? Na falta de uma resposta, deixo-lhe um consolo, pessoa de boa-fé: todos já fomos capazes de um pequeno milagre distraído na vida de alguém. Se nem sempre somos brindados com a revelação, saibamos apreciar com prazer o mistério.