Naquela tarde, ela fechou o salão mais cedo, conforme planejado. Recusara todos os agendamentos. As unhas das clientes teriam que ceder lugar a um ritual necessário.
A caminho da cozinha, relembrou com detalhes a conversa sobre o bolo preferido dele, bolo de cenoura. O término repentino do curto relacionamento não permitiu que o fizesse antes. Precisava fazer agora.
Nas anotações, a combinação das três melhores receitas que conhecia. Na geladeira, a fôrma previamente untada e enfarinhada, para desenformar melhor. Na mesa, as cenouras bem escolhidas, nem muito duras, nem muito moles. Chocolate de boa qualidade para a cobertura, colher de pau para um melhor preparo, forno aquecido na temperatura adequada.
Iniciou a cerimônia. Sim, o que estava acontecendo ali não era a simples feitura de um bolo. Era parte da entrega de todo amor e carinho que ela iria dedicar àquele que, sem o menor cuidado, mandou uma mensagem terminando tudo. As palavras presas na garganta, a dor pela falta de uma despedida presencial, a mágoa paralisante estavam se convertendo em doçura, maciez e beleza.
Foi para a escola num horário estratégico, antes da chegada dele para buscar a irmã caçula. Encostada no muro, encontrou a menina, a quem tanto se afeiçoara. Deu a ela o pacote. Disse que era um presente para todos, incluindo ela e a mãe deles. Na vasilha, o recado delicadamente manuscrito: "não precisa devolver, espero que gostem!"
Horas depois, ela recebeu uma nova mensagem, a única forma de se comunicar que ele parecia conhecer no momento. Elogios e agradecimentos tão forçados quanto as exclamações utilizadas. Nem sabia se o bolo tinha sido comido. Nem se importava. O peso do coração se desintegrou na leveza do bolo de cenoura.
Nossa... que delicadeza....
ResponderExcluirObrigado pelo carinho 😉
Excluir