Tomou um susto, mais uma vez. Quando passava por aquela árvore na calçada, ele quase sempre pensava que aquela raiz exposta, grossa e cinzenta, era um cachorro morto abandonado no canteiro. Depois do susto, a gargalhada, tanto pelo bom humor quanto pela sensação de que algumas coisas ainda podiam surpreendê-lo.
Outra coisa que o surpreendia: ele estava aprendendo a acreditar nas dicas do desconforto. Na verdade, demorou para chegar nisso. Por muito tempo, achou nobre tomar algumas porradas pacientemente. Ou aguentar alertas da razão sobre excessos dos sentimentos, ou vice-versa, enquanto não decidia se dava ouvidos ao cérebro ou ao coração. Estava aprendendo agora a dar ouvidos a quem estancasse o sofrimento primeiro.
Atravessou a rua pouco movimentada, já em frente ao comércio de hortifrúti. Conforme ia colocando os produtos na cesta, ia rindo sobre as novas decisões da vida. Já não ia segurar toda batata quente. Nem descascar qualquer abacaxi. Muito menos resolver todo pepino que se apresentasse.
Pagou a conta, cruzou novamente a via e seguiu para casa, sem se esquecer do cachorro morto hipotético do caminho.
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