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Requentando - 06

FAKE KILLS

 (texto de 27/01/2018, quando eu tinha alguma esperança de melhora)

"Curta e compartilhe para concorrer a um foguete espacial". "Marque o seu amigo nos comentários, senão uma criatura de nove pernas virá dormir com você". "Neste vídeo, Luizão das Couves mostra seu preconceito ao falar que não gosta de sorvete de milho verde". "Estudante humilha palestrante ao lhe oferecer um copo d'água". "Divulguem a foto deste casal safado, que está roubando as roupas dos varais na zona sul da cidade".  Forçando a barra, é mais ou menos isso que encontramos nas redes sociais o tempo todo. 

Já fui criança um dia (antes de existir a internet como conhecemos agora). Tinha medo de quebrar correntes e sofrer maldições. Achava que o mundo se dividia em dois lados, um bom e um mau - e, obviamente, como eu era do lado bom, tudo que fosse diferente de mim era mau. Acreditava que algumas pessoas diziam verdades inquestionáveis e, portanto, eu poderia repeti-las sem qualquer verificação prévia.

Já fui adolescente um dia (antes de existirem redes sociais como as atuais). Mesmo contra a vontade, agia de acordo com aqueles que me rodeavam, para continuar pertencendo a um "grupo". Acreditava que aquilo que eu dissesse, escrevesse ou repassasse não traria consequências graves - e, caso trouxesse, seria algo justo e de menor importância. Achava que ser o primeiro a contar uma novidade bafônica atrairia olhares de respeito e admiração das pessoas, qualquer que fosse o teor da "notícia".

Já fui jovem um dia (antes de existirem monopólios de conteúdo, como Youtube e Facebook). Achava que se eu emitisse minhas opiniões com frequência, em alto e bom som, elas se tornariam conceitos indiscutíveis. Acreditava que o meu julgamento sobre tudo era esclarecido e equilibrado, ainda que eu não soubesse de todos os elementos para avaliar as situações - e quando é que sabemos de todos os elementos?

Hoje, cheio de dúvidas, sem achar ou acreditar em muita coisa (e tranquilo em admitir isso), eu penso nos meus amigos envolvidos com estes conteúdos - sejam crianças, adolescentes, jovens, adultos ou idosos. Solidarizo-me com aqueles que leem e são afetados. Sofro por aqueles que divulgam. Torço para que sejam fases. Espero que as fichas caiam. Rogo para que a capacidade de se colocar no lugar do outro prevaleça, de algum momento em diante.

Serei mais velho um dia - bem mais velho, espero (e nem imagino o que existirá para interagirmos à distância). Neste dia, talvez eu esteja acreditando em coisas que não deveria. Talvez, na melhor das intenções, eu ache correto compartilhar bobagens dignas de uma sonora gargalhada, tão verdadeiras como uma nota de três reais. Desde já, peço a gentileza de ser ignorado. Conto com a boa vontade e o olhar piedoso daqueles que sabem que, um dia, eu já consegui me colocar no lugar do outro e evitar que miragens perigosas fossem espalhadas por aí.

(PS: se faltou uma chave de leitura para toda essa conversa, favor pesquisar sobre Fabiane Maria de Jesus...)

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