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Coragem para desagradar

Uma música. Um incômodo de oito meses. Um momento de indignação raivosa. Um texto de Bertold Brecht *. Tudo isso foi importante para o primeiro passo firme.

 

Foram anos de uma caminhada difícil. A insistência em resolver tudo de forma conciliadora trazia inevitável desagrado. Tinha que haver uma palavra que traduzia o que faltava para dar sabor a este caminhar insosso.

 

A música "Viagem ao Fundo do Ego" iluminou a situação. A palavra era coragem! A chave para acessar o valor das coisas era essa. Por oito meses, no entanto, a bendita chave ficava escorregando das mãos.

 

O evento de indignação raivosa (que não será revelado aqui) deu o clique seguinte. A coragem não é uma chave. é um molho de chaves. Este grande amontoado é a junção de pequenas “coragenzinhas” que nem sempre estão bem identificadas. A gente pode levar um tempo procurando a coragem certa para abrir a porta que surgiu em nossa frente. Tem coragem para seguir. Coragem para desistir. Coragem para resistir. Coragem para enfrentar e encarar, como dizia a música ali atrás...

 

Brecht trouxe a paz inquieta da descoberta: a chave encontrada foi a da coragem para desagradar. Para abrir mão dos bons modos quando o bem-estar é urgente. Para traçar o limite no chão e mostrar que dali ninguém passa. Para dormir satisfeito por causar um sofrimento menor, que evitou ou atenuou um sofrimento maior.

 

Foi apenas o primeiro passo. Apenas a primeira chave. Mas esta chave está definitivamente identificada. Este passo não tem recuo. Que venham os próximos!


* abaixo, o texto de Bertold Brecht:

"Vós, que surgireis da maré em que perecemos,

lembrai-vos também,

quando falardes das nossas fraquezas,

lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,

mudando mais frequentemente de país do que de sapatos,

através das lutas de classes, desesperados,

quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos

que também o ódio contra a baixeza endurece os rostos! 

A cólera contra a injustiça

faz a voz ficar rouca! Ah, os que quisemos

preparar terreno para a bondade

não pudemos ser bons.

Mas vós, quando então chegar a hora 

do ser humano ser bom para o ser humano

Lembrai-vos de nós 

com indulgência."



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