Dia nublado, monotonia, um sábado qualquer. O mau (?) tempo não vai me demover de uma missão: encontrar um rádio de pilha.
Saindo de casa, cruzo com a Jacque, figura tradicional do bairro, com o seu bonezinho e sua caixa térmica de salgados que vende por aí. Pela milésima vez, ela me pede para ajustar o despertador de seu celular, que se desconfigura de tempos em tempos e ela não sabe o porquê (nem eu). Animada, elogia o frescor do dia para trabalhar e me conta sobre a mudança para uma casa melhor.
Já imagino alguém dando risada sobre o rádio de pilha, coisa tão antiquada e anacrônica... É que eu preciso me afastar um pouco da tecnologia e dos aparelhos eletrônicos mais modernos, já que não posso me afastar completamente, por dever de ofício. Preciso não ficar ansioso com as notificações, mesmerizado em conteúdos dispensáveis, obcecado pelo trabalho sem fim.
Só não posso me desligar da música. Afinal de contas, como disse Nietzsche, "sem a música, a vida seria um erro." (Este foi aquele momento em que eu tento parecer mais inteligente e profundo do que sou, citando uma frase que eu não descobri sozinho, mas me chegou em alguma rede social. Percebe como a tecnologia cria falsas inteligências e profundidades?)
Um outro ponto é um desejo de aleatoriedade. Não, colega internauta, não estou falando de "random", "shuffle" ou outra meia-verdade dessas. Os aplicativos conhecem o seu gosto musical melhor que você e nunca irão lhe desagradar. Eu quero ouvir quem não me conhece. Quero ser sacudido de euforia e me arrepiar todo, como se eu fosse um adolescente... Em seguida, quero ser surpreendido por uma tristeza cortante, que acabe comigo e me deixe mal por alguns dias... Depois, quero algo que não me diga absolutamente nada, monocórdico, previsível, sem sentido... E em algum momento, em alguma estação, vai tocar a música da minha vida.
Encontro o rádio de pilha. Caminho tranquilamente para casa, mesmo que as gotas de chuva comecem a aumentar. É bom se sentir livre. A Jacque já sabe disso muito antes de mim...
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