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A abstinência

(Sugestão: ler antes - ou depois - o texto "A contagem", presente nesta página)

Larissa subiu as escadas e se apoiou no parapeito da varanda. Noite agradável, fresca, cidade iluminada logo ali. Um bipe irritante prenunciava o disparo de um alarme em algum veículo ou comércio próximo. Mas ela só absorvia o silêncio.

Ao lado, sobre a cadeira, a garrafa de Almadén Moscatel Blanc e o maço de L&M. O lado racional fora abandonado há três taças atrás. A bituca do cigarro atual já acendia o próximo. Nada disso preocupava, nada disso viciaria - no dia seguinte, a rotina saudável estaria de volta. 

A abstinência que iria persistir era outra... era de Leandro. Da voz, do sorriso, das sobrancelhas inquietas ao falar. Principalmente, a abstinência do olhar... A última dose do olhar beirou a overdose, em duração e penetração. Foi ela quem começou. E ele correspondeu...

Como lidar com aquilo? Aquela porta deveria ser aberta? Larissa tinha um longo período de coisas importantes pela frente. Leandro sabia disso. Lentamente, quase num comum acordo não declarado, reduziram os olhares a níveis toleráveis de consumo e simularam uma sobriedade bem disfarçada.

Garrafa vazia na cadeira, cigarro amassado no cinzeiro transbordante, Larissa desceu para comer chocolate. A noite pedia o vício mais inofensivo possível...

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