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Cacos

Foi muito bom voltar a fazer longas caminhadas. Respirar, cansar, suar. Botar para escorrer as toxinas físicas e mentais. Fora que o corpo faz um drinque delicioso de endorfina e serotonina durante o exercício, dá uma "brisa" sensacional...

Chama a minha atenção a quantidade de cacos de vidro nas ruas, calçadas, matagais, construções abandonadas, estacionamentos de mercados. Vidro moído, lascado, serrilhado, quase inteiro, de diferentes formatos, espalhado aleatoriamente pelo caminho. Isso me incomoda de várias maneiras.

Incomoda por me fazer lamentar a nossa falta de cuidado com animais soltos, pessoas com deficiências, crianças, ou apenas distraídos. Com o outro, enfim.

Incomoda por ser uma metáfora com nossos sentimentos quebrados. Estilhaçamos por dentro e sujeitamos quem cruza nosso caminho a ferimentos às vezes evitáveis, injustos.

Incomoda por eu nunca saber o que fazer com os meus cacos, concretos e metafóricos. Na despensa de minha casa, há uma caixa cheia de pedaços de lâmpadas, copos, potes de compota, garrafas e outros. Aqui dentro de mim, cacos diversos, de diferentes épocas, com diferentes graus de risco, estrategicamente mal equilibrados. Pelo menos para estes, tenho contado com a habilidosa ajuda da psicóloga para localizar, categorizar e dar a devida destinação.

E sigamos a caminhada, prestando atenção em onde pisamos.

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