Foi há uns dois meses. A semana estava difícil. Muitas coisas atrasadas no trabalho, a casa estava uma bagunça, faltava foco para tudo. O meu mau humor devia estar vazando pelos olhos e pela boca.
Ainda por cima, o filho mais velho estava com dores havia alguns dias, depois de uma extração de dente complicada, com várias idas ao dentista. Ao mesmo tempo em que me lamentava por não conseguir resolver a situação dele, eu demonstrava uma chateação cruel, como se fosse mais uma "pendência" que estava atrapalhando a minha (des)organização.
Aí, aconteceu. Voltando do consultório, já em casa, após mais umas doses de antibiótico e analgésico, ele foi se deitar um pouco. Olhando de relance para o quarto dele, só deu para ver os seus pés sobre o colchão. Um deles, com meia, o outro, sem meia. Naquele instante, o adolescente de quinze anos, maior que eu, voltou a ser o garotinho de dois anos, que tinha o mesmo costume de tirar apenas uma das meias para dormir.
Caí em mim... E aí, paizão, não tá dando conta, né? E quem disse que você daria? Por acaso alguém te nomeou o solucionador de todos os problemas, o infalível, o herói que faz bonito do início ao fim do filme?
Todo filho é uma bênção e um desafio. Aqui em casa são dois. Na casa dos meus pais éramos três. Nas casas dos meus avós, meia dúzia de cada lado. Como conseguiram? Meu saudoso pai não está mais aqui conosco, mas, ainda hoje, corremos para o colo da mãe em alguns momentos de dificuldade. Será que nunca acaba? Será que seremos sempre aquele porto seguro que, no fundo, é apenas outro barco com algumas horas a mais de navegação?
É necessário fazer um ajuste de perspectiva. Somos potentes. Não somos onipotentes. Nem impotentes.
Eu preciso lembrar que já estive lá. Já fui o adolescente de quinze anos, com minhas dores, meus problemas, meu mundo particular impenetrável. Gostava de pensar que não precisaria de ajuda, mas, sempre que precisava, sabia em quem buscar. Muitas vezes, era no meu pai que eu buscava. Quando isto acontecia, aquele cara matava a pau, ainda que ele não soubesse disso o tempo todo. Até mesmo o silêncio, a distância calculada, a confissão de não saber o que escolher no meu lugar, eram tudo que eu´precisava...
Tentativa e erro. Eu acredito que cuidar de alguém tem muito disso. Só se chega a um resultado positivo tentando, errando, repensando, improvisando, insistindo um pouco, refazendo diferente, enfim, mudando a receita toda vez que o bolo queimar ou solar. O gosto ruim de um único erro vai durar mais tempo do que o doce sabor de dez acertos. Em todo caso, não existe a opção de não tentar.
E nas ocasiões em que não depende da gente? No fim das contas, continua sendo uma questão de torcer para que nossas tentativas tenham surtido efeito. De confiar nas sementes que plantamos. Às vezes, o trabalho é nosso, às vezes, só cabe a elas agir. Num dia, você rega, poda, ampara e protege. No outro, descansa na sombra, colhe os frutos e admira as flores e as peculiaridades. E confia na força das raízes, na resistência do caule e na flexibilidade dos galhos.
Talvez a gente nunca consiga resolver tudo. Talvez um dos pés sempre fique sem meia. Talvez isso não seja ruim...
(Em tempo: alguns dias depois, a gengiva cicatrizou. Algumas dores a menos, para ele e para mim.)
Ainda por cima, o filho mais velho estava com dores havia alguns dias, depois de uma extração de dente complicada, com várias idas ao dentista. Ao mesmo tempo em que me lamentava por não conseguir resolver a situação dele, eu demonstrava uma chateação cruel, como se fosse mais uma "pendência" que estava atrapalhando a minha (des)organização.
Aí, aconteceu. Voltando do consultório, já em casa, após mais umas doses de antibiótico e analgésico, ele foi se deitar um pouco. Olhando de relance para o quarto dele, só deu para ver os seus pés sobre o colchão. Um deles, com meia, o outro, sem meia. Naquele instante, o adolescente de quinze anos, maior que eu, voltou a ser o garotinho de dois anos, que tinha o mesmo costume de tirar apenas uma das meias para dormir.
Caí em mim... E aí, paizão, não tá dando conta, né? E quem disse que você daria? Por acaso alguém te nomeou o solucionador de todos os problemas, o infalível, o herói que faz bonito do início ao fim do filme?
Todo filho é uma bênção e um desafio. Aqui em casa são dois. Na casa dos meus pais éramos três. Nas casas dos meus avós, meia dúzia de cada lado. Como conseguiram? Meu saudoso pai não está mais aqui conosco, mas, ainda hoje, corremos para o colo da mãe em alguns momentos de dificuldade. Será que nunca acaba? Será que seremos sempre aquele porto seguro que, no fundo, é apenas outro barco com algumas horas a mais de navegação?
É necessário fazer um ajuste de perspectiva. Somos potentes. Não somos onipotentes. Nem impotentes.
Eu preciso lembrar que já estive lá. Já fui o adolescente de quinze anos, com minhas dores, meus problemas, meu mundo particular impenetrável. Gostava de pensar que não precisaria de ajuda, mas, sempre que precisava, sabia em quem buscar. Muitas vezes, era no meu pai que eu buscava. Quando isto acontecia, aquele cara matava a pau, ainda que ele não soubesse disso o tempo todo. Até mesmo o silêncio, a distância calculada, a confissão de não saber o que escolher no meu lugar, eram tudo que eu´precisava...
Tentativa e erro. Eu acredito que cuidar de alguém tem muito disso. Só se chega a um resultado positivo tentando, errando, repensando, improvisando, insistindo um pouco, refazendo diferente, enfim, mudando a receita toda vez que o bolo queimar ou solar. O gosto ruim de um único erro vai durar mais tempo do que o doce sabor de dez acertos. Em todo caso, não existe a opção de não tentar.
E nas ocasiões em que não depende da gente? No fim das contas, continua sendo uma questão de torcer para que nossas tentativas tenham surtido efeito. De confiar nas sementes que plantamos. Às vezes, o trabalho é nosso, às vezes, só cabe a elas agir. Num dia, você rega, poda, ampara e protege. No outro, descansa na sombra, colhe os frutos e admira as flores e as peculiaridades. E confia na força das raízes, na resistência do caule e na flexibilidade dos galhos.
Talvez a gente nunca consiga resolver tudo. Talvez um dos pés sempre fique sem meia. Talvez isso não seja ruim...
(Em tempo: alguns dias depois, a gengiva cicatrizou. Algumas dores a menos, para ele e para mim.)
Parabéns, super pai!! E também pelo blog, que agora é "oficial". Que os novos caminhos sempre lhe sejam viáveis e valiosos!
ResponderExcluirUau! Meu primeiro post comentado, estou me sentindo importante!
ExcluirBrincadeiras à parte, agradeço de coração.
Caminhos viáveis repletos de força e honra para todos nós!
Opa, esse é o jeito certo de responder... Troquei o perfil da última vez. Coisa de iniciante. Eu chego lá, eu chego lá!
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