Foi há cerca de um ano. Estacionei o carro na avenida e segui a pé pela viela que, me levaria à rua do laboratório de exames clínicos. Na mesma calçada, sentido contrário, a mulher e a menina pequena. Percebi o olhar preocupado da mulher. Abaixei a cabeça, atravessei a via e captei uma onda de alívio.
Não fiquei ressentido, longe disso. Sou homem, grande, cara fechada, pertenço ao grupo no qual surgiram fortes motivos para este mundo assustado, engatilhado, reativo, perigoso... E é uma bosta que o mundo esteja assim. Não quero minhas sobrinhas na pele da mulher e da criança. Não quero meus filhos na minha pele.
Corta para hoje. Tarde cinza, vento frio, caminhada sem compromisso. Na rua vazia, na mesma calçada, duas moças vindo em minha direção. Antes de abaixar a cabeça, recebo olhares tranquilos com a aproximação. Sigo em frente, sem contato visual, com o esboço de um sorriso, grato pela confiança.
Talvez o mundo tenha jeito. Só peço sensibilidade para dar os passos certos. Sejam passos para atravessar a rua (e afastar medos, e criar segurança), sejam passos em frente (para trocar respeito, para reforçar humanidade).
Comentários
Postar um comentário